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AS ACEPÇÕES DOS VOCÁBULOS

O tempo altera os sentidos

Sem dúvida, é verdadeira a ideia de que uma língua precisa de estabilidade. A comunicação humana seria impossível se cada pessoa atribuísse um sentido diferente aos vocábulos. Essa ideia, contudo, tem de conviver com outra, igualmente verdadeira, de que as línguas não são códigos totalmente fixos ou estáticos, mas sistemas dinâmicos e variáveis. Afinal, o tempo passa, as pessoas nascem e morrem, as comunidades crescem e se espalham por novos territórios, surgem novos ofícios e comportamentos, de tal forma que os usos linguísticos se diversificam num movimento constante.

Por exemplo, em sua origem, o substantivo marechal denominava o indivíduo encarregado dos cavalos nas cortes medievais. Hoje, como informa o Dicionário Aurélio, designa o “chefe supremo do exército em caso de guerra”. Trata-se de uma transformação linguística associada à própria evolução dos exércitos, fruto da importância cada vez maior adquirida desde então pela cavalaria.

Outro caso notável é o do substantivo polícia. Derivado do grego pólis, “cidade”, o termo significava, na origem, “civilização”, ou, como consigna o Dicionário Aurélio, “conjunto de leis ou regras impostas aos cidadãos com o fito de assegurar a moral, a ordem e a segurança públicas”.

É com sentido semelhante que ainda se emprega o vocábulo urbanidade, derivado de urbis, que, agora, em latim, também significa “cidade”.

Esse tipo de fenômeno pode ser observado não só na pesquisa histórica, mas na própria linguagem cotidiana. Frequentemente nos deparamos com sentidos particulares que desconhecíamos porque são usos de outra geração, ou são específicos de certos contextos sociais ou regiões do país. É só pensar na palavra “ficar”.

Temos um uso mais antigo do verbo, correspondente a “tornar-se” e temos um significado mais atual: o ato de “trocar carinhos por períodos curtos, mas sem o compromisso de namoro”.

Como já comentamos, tal fato – comum a todas as línguas – é denominado polissemia, literalmente, os “muitos sentidos” de um vocábulo ou uma expressão.

Polissemia e expressividade

A existência da polissemia desperta a possibilidade de aproveitamento expressivo de certos vocábulos, ao mesmo tempo em que pode provocar ambiguidade. Há vários casos assim principalmente em textos publicitários e mesmo em manchetes de jornais e revistas.

Polissemia e frequência

Trabalhando nas primeiras décadas do século XX, o psicólogo e estudioso da linguagem George Kingsley Zipf foi um dos pioneiros na aplicação de métodos estatísticos ao estudo do léxico. Comparando listagem obtida em mais de 30 línguas, num total de menos 1 milhão de vocábulos, ele propôs equações ou princípios que explicariam aspectos importantes do funcionamento das línguas, conhecidas como leis de Zipf.

Uma delas diz respeito à relação entre polissemia e frequência e propõe que a quantidade de significados de um vocábulo é diretamente proporcional a sua freqüência relativa. Noutras palavras, quanto mais frequente é um vocábulo, mais polissêmico ele tenderia a ser.

Não está certamente no âmbito deste texto discutir em que medida é válida a lei de Zipf. Mesmo assim, parece evidente que ela pode ser sustentada com grande variedade de exemplos.

Se você consultar o Dicionário Aurélio, ficará claro, desde as primeiras páginas, que a quantidade de significados dos vocábulos é bastante desigual. Por exemplo, o verbete físico se escreve com menos palavras do que os verbetes achar e ser.

Não é difícil supor aí uma relação com a frequência. A palavra ser é uma das mais frequentes do português, podendo empregar-se como verbo ou substantivo, com várias funções gramaticais e discursivas. Já físico, embora não tenha uma frequência desprezível, está longe de ser tão comum, razão por que apresenta menos sentidos.

E na sala de aula?

O trabalho com a polissemia representa uma das mais lúdicas e variadas possibilidades de aplicação, em sala de aula, do estudo do léxico e do dicionário. Inúmeras tiras em quadrinhos, anúncios publicitários, poemas, trechos literários, anedotas, etc., constroem-se com base no duplo sentido de um vocábulo. Há, inclusive, exemplos adequados às várias faixas etárias.

Por outro lado, a polissemia pode gerar também enunciados ambíguos, cujo sentido ficou contextualmente prejudicado pelo duplo sentido de um termo ou expressão. Compete ao professor, naturalmente, mostrar aos alunos quando o uso intencional da polissemia constitui uma virtude que enriquece a expressividade do enunciado e quando, ao contrário, constitui um equívoco.

Para abordar a polissemia em sala de aula, peça a seus alunos que tragam vários anúncios publicitários e explore os vários sentidos que algumas palavras assumem nesse tipo de texto.

 
     
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