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MACROESTRUTURA DO DICIONÁRIO

Macro e microestrutura

Em linhas gerais, podemos dizer que o projeto lexicográfico de um dicionário apresenta dois aspectos diferentes (e complementares), o primeiro dos quais diz respeito a quais verbetes serão incluídos na obra e de que modo isso será feito. Essa é a macroestrutura de um dicionário.

Alguém poderia pensar que o objetivo de um dicionário “grande” seja, sempre, contemplar “todos os vocábulos de um idioma”, mas esse, na prática, não é o caso das obras lexicográficas reais, até porque essa não seria uma meta realmente exequível. Apesar do desejo contrário de certos puristas, as línguas são instituições humanas em constante transformação, e, tão logo fosse editado o tal dicionário “de todos os vocábulos”, já haveria usos que, entre o momento de sua escrita e o de sua publicação, já não estariam contemplados.

Além disso, os dicionários são produtos editoriais e, como tais, buscam adaptar-se a condições reais de veiculação.

Além da macroestrutura, um dicionário deve definir também como se organiza cada um dos verbetes, que formas fixas e variáveis eles devem apresentar. Essa decisão define a microestrutura da obra lexicográfica.

Nesta seção, trataremos dos aspectos macroestruturais. Na seção seguinte, da estrutura dos verbetes. Ambas as análises, contudo, dependem de que, inicialmente, discutamos qual a função e o gênero dos dicionários.

A natureza dos dicionários

Muitas teorias linguísticas atuais (ou que, embora formuladas há algumas décadas, têm tido maior circulação contemporaneamente) e outras tantas orientações pedagógicas (como os Parâmetros Curriculares Nacionais) têm enfatizado a importância de operar, na sala de aula, com base no conceito de gêneros do discurso ou gêneros textuais.

De modo um pouco distinto da noção tradicional de tipos de texto (ou modos da composição), o conceito de gênero apontaria não apenas para a estrutura interna dos textos, mas para as condições sociais em que ele é veiculado, ou seja, sua funcionalidade, seu valor social, os contextos em que ele circula, quem o produz, a quem se destina, etc.

Em conformidade com essa ideia, um dos primeiros aspectos trabalhados pelo professor de Língua Portuguesa a respeito do dicionário deve enfocar, justamente, a caracterização do gênero ao qual ele pertence.

E na sala de aula?

1. Leve os alunos a refletir sobre a seguinte questão: pode-se ler um dicionário como se lê outro livro qualquer? Por quê?

Apesar de a leitura continuada de uma obra lexicográfica não ser uma atividade descabida (há mesmo quem a aconselhe como forma de dominar melhor a língua portuguesa), o fato é que o dicionário é, fundamentalmente, um livro para consultas, uma obra de referência.

A partir dessa pergunta, o professor pode introduzir a discussão sobre o gênero e a natureza do dicionário, aproximando-o, inclusive, de obras de referência, como a gramática, o atlas ou a enciclopédia.

2. O tipo de dicionário mais conhecido é o dicionário monolíngue. É o caso, por exemplo, do Dicionário Aurélio, para o português, ou do Webster’s, para o inglês.

Mas há outros tipos de dicionário, como os profissionais ou científicos. O professor pode levar os alunos à biblioteca e pedir que pesquisem as obras ali dispostas e indiquem outros tipos de dicionário além do dicionário monolíngue.

Há dicionários de regência, etimológicos (cujo foco é a origem e evolução histórica dos vocábulos), regionais (do falar paraibano, do falar gaúcho, etc.), dicionário de gírias ou de palavrões, além dos técnicos, científicos ou profissionais, como dicionários de Filosofia, de Política, de termos médicos, psicanalíticos, etc.

A ordem alfabética

Os dicionários ordenam alfabeticamente os seus verbetes. Tal ordenação observa todas as letras do vocábulo, da letra inicial até a letra final. Apesar de bastante corriqueira para um adulto, essa informação é relativamente nova para as crianças, principalmente as de 1.ª e 2.ª séries do Ensino Fundamental. Nessa idade, elas tendem a observar apenas a primeira letra do vocábulo, desconsiderando as demais. Com isso, têm certa dificuldade em localizar o verbete procurado.

E na sala de aula?

O professor das séries iniciais pode fazer um trabalho específico para construir a compreensão de que a ordenação alfabética atenta para todas as letras do vocábulo.

Inicialmente, seria interessante apresentar uma situação em que as próprias crianças elaborassem uma listagem alfabeticamente ordenada. O mais simples é propor à turma a elaboração de uma agenda com os nomes e telefones (e, eventualmente, endereço e endereço eletrônico) de todos. Naturalmente, o primeiro passo é dispor esses nomes em ordem alfabética. Como sempre há crianças com nome diferente iniciado pela mesma letra (Paulo, Patrícia, Pedro; Mayara, Míriam, Marcos; etc.), a atividade permite discutir qual desses nomes aparece antes na agenda. Num momento posterior, o professor procura mostrar como o mesmo princípio se aplica a outras listas ou ordenações, até chegar ao dicionário.

Por que às vezes um, às vezes mais de um verbete?

Um tópico interessante e relativamente pouco conhecido da macroestrutura de um dicionário diz respeito à definição sobre se determinada forma aparece em um ou mais de um verbete. Basta abrir um dicionário para notar que alguns verbetes são relativamente longos. Por exemplo:

coro (ô) sm. 1. Conjunto vocal que se expressa pelo canto e pela declamação. 2. s. Conjunto de cantores, em número mais ou menos considerável, que executam peças em uníssono ou a várias vozes. 3. s. Composição destinada a este tipo de execução. Etc.

O vocábulo coro, então, tem ao menos doze significados distintos. Todos arrolados em um único verbete.

Mas pessoas que habitualmente consultam dicionários já se depararam com um fenômeno diferente. Às vezes, nem há tantos sentidos, mas o verbete não é único:

manga 1 sf. 1. Parte do vestuário onde se enfia o braço. 3. Qualquer peça de forma tubular que reveste ou protege outra peça.

manga 2 sf. 1. O fruto da mangueira2 .

Os dois verbetes, somados, são menores que o verbete correspondente a coro. Então, por que eles são dois e não apenas um?

A resposta a essa questão diz respeito à distinção entre polissemia e homonímia, fundamental na dimensão macroestrutural de qualquer projeto lexicográfico.

Chamamos de polissemia ao fato de que o mesmo vocábulo pode apresentar vários significados. Assim, o vocábulo coro pode designar, por exemplo, um conjunto vocal ou um balcão (o vocábulo balcão, aliás, também é polissêmico).

A homonímia, por outro lado, é o fenômeno em que dois vocábulos diferentes resultam ter a mesma forma, como é o caso dos dois vocábulos cuja forma é manga.

Está bem, pensará o leitor: mas como podemos discernir as duas situações?

Muitos linguistas já debateram a distinção entre os dois casos e o resultado é uma polêmica que ainda persiste. Na prática, porém, a solução adotada pela quase totalidade dos lexicógrafos consiste em observar o percurso histórico da forma em questão. Os vários sentidos de coro circunscrevem-se a um único vocábulo porque remetem todos à mesma origem, ao mesmo étimo, qual seja, o vocábulo latino choru.

Mas o caso de manga é diferente. Designando uma parte do vestuário, manga origina-se do vocábulo latino manica (cuja raiz é a mesma de mão; os latinos conheciam apenas a “manga comprida”, isto é, a manga que vai até a mão). A fruta de nome manga, porém, é de origem asiática, e o vocábulo que a designa origina-se de um idioma denominado malaiala. Essas diferentes origens caracterizam um caso de homonímia, não de polissemia.

E na sala de aula?

Uma proposta de atividade consistiria em pedir a cada aluno ou grupo de alunos que descobrisse outros casos de homonímia no Dicionário Aurélio. Há vários exemplos interessantes, como pena, polo e quintal.

Onde estão as flexões?

Como já comentamos – e como todos já vivenciamos – o motivo mais recorrente de consulta ao dicionário é descobrir o sentido de um vocábulo. Imagine, no entanto, que uma criança viu num texto o verbo examinaram e o adjetivo estupefatas e queira encontrar o sentido dessas palavras. A primeira tendência da criança geralmente é buscar no dicionário o vocábulo na forma exata com que ele aparece no texto – e muitas vezes frustrar-se por não localizá-lo.

Como sabemos, o dicionário em geral registra os vocábulos em sua forma “básica”. Colocamos esse termo entre aspas para ressaltar que há algo de convencional na definição de qual é essa forma. Para os verbos, por exemplo, concordou-se que a forma básica é o infinitivo. Isso para a língua portuguesa.

Quem já consultou um dicionário de latim sabe que, para essa língua, a convenção é indexar o verbo pela primeira pessoa do presente do indicativo.

De qualquer modo, além de saber que os verbos são registrados no infinitivo, a criança deve perceber que os nomes, por via de regra, aparecem no masculino singular. Assim, para saber o significado das formas examinaram e estupefatas, o consulente tem de buscar o verbete examinar.

Mesmo que o Aurélio On-line encontre automaticamente, na maior parte dos casos, a forma básica do verbete, ainda que o usuário tenha digitado a forma já flexionada (como no caso dos verbos), a internalização desse conhecimento é fundamental para o usuário de um dicionário. Em aula, além disso, ele pode ser útil para introduzir outros conceitos gramaticais.

Como sabemos, a passagem de estupefato para estupefatas, ou de examinar para examinaram, consiste na chamada flexão desses vocábulos. Em termos simples, podemos dizer que a flexão pode ser compreendida como uma transformação na forma de um vocábulo sem que, com isso, se crie um novo vocábulo.

Em português, há várias flexões, como a de número (singular e plural), gênero (masculino e feminino), tempo e modo (e, até certo ponto, aspecto) e pessoa gramatical. Em todos os casos, trata-se de alterações regulares de forma, que consistem na colocação de terminações (as chamadas desinências) estáveis e não muito variadas, aplicáveis a conjuntos definidos de vocábulos.

Em contraste com a flexão, a derivação é uma alteração de forma que efetivamente leva à criação de um novo vocábulo, que, por sua vez, também pode admitir flexões. Assim, a passagem de local para locais constitui uma flexão, mas a transformação de local em localidade ou localizar caracteriza-se como uma derivação. Nesses casos, as terminações não se chamam desinências, mas sufixos.

E na sala de aula?

Ávido por um bom livro, um jovem lia o romance O Primo Basílio, do escritor português Eça de Queirós (1845-1900), quando, repentinamente, se deparou com uma expressão que o deixou intrigado:

Basílio não tirava os olhos de Luísa. Sob o véu branco, à luz falsa do gás, no ar enevoado da poeira, o seu rosto tinha uma forma alva e suave, onde os olhos que a noite escurecia punham uma expressão apaixonada; os cabelinhos louros, frisados tornando a testa mais pequena, davam-lhe uma graça ameninada e amorosa; e as luvas gris perle faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante das mãos, que ela pousara no regaço, sustentando o leque, com uma fofa renda branca em torno dos seus pulsos finos.

Eça de Queirós, O Primo Basílio.

“Olha só”, pensou o jovem, “esta edição traz um erro.” Ele dirigiu-se, então, à livraria onde comprara o livro para reclamar. Disse ele ao livreiro: “Esta obra traz um erro de português, que não poderia ter sido cometido por Eça de Queirós. Só pode ser um erro de revisão.”

O livreiro, porém, leu o trecho e discordou: “Não há erro, é assim mesmo.”

a) Que expressão chamou a atenção do jovem leitor de Eça de Queirós, a ponto de ele a considerar um erro gramatical?

O jovem considerou equivocado o emprego da expressão mais pequena. Para ele, deveria estar escrito menor.

b) O livreiro discordou do jovem e argumentou que não havia erro. Consulte o Dicionário Aurélio e diga: quem tem razão nessa questão?

Para essa consulta, há necessidade de buscar o verbete pequeno. Nele, informa-se que a locução mais pequeno (7) é adequada à norma-padrão da língua portuguesa. Diz-se, mesmo, que tal expressão é “corretíssima”.

 
     
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