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O VERBETEOs verbetes têm muitas partesEstruturalmente, o verbete – unidade básica do dicionário – compõe-se de dois elementos essenciais: a entrada (ou cabeça) e o enunciado lexicográfico. Para conhecer os elementos básicos do enunciado lexicográfico, consulte o item Conheça mais sobre o verbete. E na sala de aula? Como já comentamos a respeito de outros tópicos, também a apresentação e a análise das várias marcas lexicográficas podem se dar pela exposição por parte do professor ou pela construção dialogada com a turma. Na verdade, a observação atenta dos verbetes já permite aos alunos deduzir e mesmo classificar a maioria das marcas. Comparando verbetes, a turma pode perceber, por exemplo, que a primeira marca dos verbetes indica a classe gramatical do vocábulo. O professor pode, inclusive, empreender um levantamento dessas classes, usando a pesquisa avançada. O dicionário é muito útil no estudo da classificação morfológica dos vocábulos. O estudo das classes de palavras pode enriquecer-se bastante quando o professor explicita quais os critérios que levam a essa taxionomia. Em linhas gerais, podemos dizer que esses critérios dizem respeito à forma, à função e ao significado dos vocábulos. O primeiro ponto diz respeito a que tipos de flexão o vocábulo admite. Por princípio, palavras de mesma classe admitem as mesmas flexões. É para esse aspecto que o dicionário é particularmente útil. Como vimos, a consulta ao dicionário introduz de um modo natural o trabalho escolar com o conceito de flexão (pois os dicionários, por via de regra, registram, como verbetes independentes, as formas básicas, não as flexionadas). Esse fato, aliado à própria marcação da classe gramatical nos verbetes, faz com que o estudo do dicionário (e do léxico em geral) seja um bom modo de introduzir o trabalho formal com as classes gramaticais. As marcas verbaisComo uma das classes essenciais para a estruturação dos enunciados em língua portuguesa, o verbo recebe um tratamento especial no Dicionário Aurélio, tanto no que diz respeito à conjugação quanto à regência. Muitas vezes, na escola, insistimos que os estudantes memorizem um sem-número de regras de gramática normativa. De fato, há um rol de regras básicas que convém saber de modo mais ou menos automático. Não há por que, após vários anos de escolarização, ter dúvida sobre princípios básicos de concordância ou de emprego de pronomes pessoais, por exemplo. Mas também é fato que a quantidade de normas gramaticais supera em muito a possibilidade de memorização do usuário comum da linguagem. Nessa perspectiva, a função fundamental da escola é menos incentivar a memorização e, mais, desenvolver a competência do estudante em consultar obras especializadas (principalmente a gramática e o dicionário – os instrumentos linguísticos por excelência). A conjugação e a regência verbal são bons exemplos dessa abordagem. Não há como um usuário “normal” saber de cor a regência e a conjugação dos milhares de verbos do português. O que ele precisa é saber consultar quando tiver dúvida. O Aurélio On-line já traz a conjugação de todos os verbos, permitindo ao usuário consultá-la sempre que necessitar. A marcação de regência se dá imediatamente após a indicação de que o vocábulo é um verbo, ou seja, logo ao início do verbete. É importante que o professor explique as diferentes marcas, empreendendo – no momento em que julgar mais conveniente – um estudo específico sobre regência verbal. De modo didático, podemos dizer que a regência verbal se ocupa da forma dos complementos verbais, observando, desde a existência ou não desses complementos, sua função semântica e sua forma (especialmente, se tais complementos aparecem ou não introduzidos por preposições obrigatórias). E na sala de aula? A atividade mais interessante aqui consiste em apresentar situações em que a conjugação ou a regência verbal possam não ser evidentes, incentivando os estudantes a consultar o dicionário para dirimir a dúvida. A seguir, apresentamos alguns exemplos. 1. Os fragmentos a seguir trazem formas verbais inadequadas à norma-padrão para a língua escrita. Consultando o Aurélio On-line, é possível perceber essas inadequações e reescrevê-las convenientemente: a) Meu pai sempre interviu muito nos negócios da minha empresa. A forma inadequada é interviu. Em norma-padrão seria interveio. b) O tempo remedia tudo. A forma inadequada é remedia. Em norma-padrão seria remedeia. c) A polícia deteu a quadrilha de assaltantes bem a tempo. A forma inadequada é deteu. Em norma-padrão seria deteve. 2. Pergunte aos seus alunos se está correto dizer: “Quer namorar comigo?” Deixe que discutam a questão entre eles e, depois, peça que procurem o verbete namorar, reproduzido abaixo, no Aurélio On-line: Levante, então, as seguintes questões: a) O significado de namorar nesse caso está descrito em qual ou quais dos itens que compõem o dicionário? Utilizando a descrição apresentada pelo dicionário, podemos dizer que o verbo namorar foi empregado com o sentido de “manter relação de namoro com”, o que corresponde aos significados (3) e (8). b) Explique por que é correto dizer “Quer namorar comigo?”. Pelas normas do Dicionário Aurélio, a frase está adequada à língua escrita. No item (8), o verbete arrola, sem qualquer ressalva, a regência de namorar como transitivo indireto. “Edílio está namorando com Mirna” (Dias da Costa, Canção do Beco, p. 19) – utiliza a preposição com. Faz-se, entre colchetes, ainda o seguinte comentário, como a confirmar o ponto de vista sobre a regra: “O uso de namorar com esta regência [transitivo indireto] é perfeitamente legítimo, moldado em casar com e noivar com.” Se desejar, o professor pode comentar esse raciocínio por analogia, implícito na argumentação: casar e noivar são verbos de sentido muito próximo ao de namorar; ambos se constroem com preposição com; que mal haveria, então, em adotar a mesma regência para namorar? c) De que outra forma pode ser escrita a frase? O Dicionário Aurélio registra duas regências para a mesma acepção do verbo. A outra regência encontra-se comentada no item (3), segundo a qual o verbo pode ser empregado como transitivo direto. Sendo assim, a frase teria de ser redigida sem a preposição com. Isso obriga a também transformar a forma do pronome, de comigo para me. A frase seria: Quer me namorar? É interessante discutir com os estudantes qual a frase mais eufônica (isto é, mais “sonora”) e comentar, por exemplo, que, se a variante for empregada num texto mais informal, aconselha-se certo desapego à tradição gramatical mais purista. As marcas de usoA observação da variação linguística e da abrangência social, regional e histórica da língua portuguesa constitui-se, certamente, numa das mais expressivas contribuições do Dicionário Aurélio para a lexicografia e a cultura brasileira e lusófona. Como todos sabemos, a Semana de Arte Moderna de 1922 inicia o Movimento Modernista no Brasil. Desde aquele instante, liberava-se uma enorme energia criativa até então relativamente contida pelos cânones da arte tradicional. A quantidade de grandes artistas, prosadores e poetas, bem como críticos e intelectuais em geral, surgidos da corrente modernista, é expressiva e revela um dos momentos mais fecundos da arte e da cultura brasileira em todos os tempos. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira insere-se dentro dessa tradição. Não só conviveu com vários desses artistas e intelectuais, como, sem esquecer a tradição clássica, pôde contribuir para registrar e legitimar a produção deles. Não por acaso, o professor Aurélio já coordenava, a partir da 9.ª edição (1951), o Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, originariamente organizado por Hildebrando de Lima e Gustavo Barroso e revisto por João Baptista da Luz e ninguém menos que o grande poeta modernista Manuel Bandeira. O próprio dicionário informa que a edição coordenada por Aurélio Ferreira apresentava-se “inteiramente revista e consideravelmente aumentada – sobretudo na parte de brasileirismo”. Sob vários aspectos, podemos, sem exagero, considerar que o Dicionário Aurélio foi a expressão lexicográfica do Modernismo artístico, literário e cultural. Antes do Aurélio não era comum que os dicionários registrassem os vários usos da língua portuguesa, mas apenas os usos considerados “corretos”. Em sua primeira edição, em 1975, o dicionário sofreu críticas por registrar termos coloquiais, informais e, mesmo, gírias e palavrões. Em sua maioria, contudo, a intelectualidade e o público reconheceram que o Aurélio nada mais fazia do que efetivamente mostrar a língua portuguesa em sua abrangência, dando voz lexicográfica a usos já presentes tanto na fala quanto na literatura. Isso, contudo, não se faz aleatoriamente. Se é obscurantismo e preconceito não registrar vocábulos coloquiais ou giriáticos, também seria impreciso não apontar o valor que eles possuem dentro da língua. Assim, o Aurélio empreende marcações de uso, que orientam o consulente a perceber o valor social e cultural do vocábulo. Desse modo, pode falar com adequação – procedimento que constitui o ideal de bom desempenho linguístico, conforme todas as teorias contemporâneas. E na sala de aula? Também aqui a atividade mais interessante consiste em simular situações de escrita em que a consulta ao Aurélio On-line permita decidir sobre a adequação ou não de determinado vocábulo a um contexto específico. 1. Convidado a proferir um discurso em evento de confraternização de seu clube, o Sr. Gumercindo Correia viu-se às voltas com uma dúvida de linguagem. Resolveu, então, consultar seu filho adolescente: – Você acha que, ao me referir ao nosso evento, eu devo falar em janta ou em jantar? Antes de responder, o jovem, versado nas concepções modernas sobre o bom uso da língua portuguesa, quis informar-se melhor: – Sua fala vai ser basicamente formal ou informal? Ao que o pai respondeu: – Olhe, apesar de sermos todos amigos, essas falas costumam ter um tom mais formal. O jovem, então, consultou o Dicionário Aurélio e pôde orientar adequadamente o pai. Que resposta ele lhe deu? Consultando o dicionário, podemos notar que o vocábulo janta aparece com a marca Pop., ao passo que jantar é um verbete não marcado quanto ao uso. Isso indica que, numa situação formal, é preferível o emprego de jantar, e não de janta – e foi essa a resposta que o jovem deu a seu pai. 2. O chefe de gabinete de um ministro de Estado solicitou a um de seus assessores que redigisse um relatório que prestasse informações sobre o andamento de um importante projeto do ministério. Em certo trecho, o relatório informava: Todas as providências foram adequadamente tomadas. O projeto está pronto para ser executado, faltando, para tanto, apenas o jamegão do Sr. ministro. O chefe de gabinete do ministro, porém, julgou que esse trecho não estava convenientemente redigido, pois havia nele um vocábulo de cunho marcadamente popular, o que não ficaria bem num texto formal, podendo mesmo dar a impressão de ironia. a) Qual é esse vocábulo? Trata-se do vocábulo jamegão. b) Que outro vocábulo poderia substituí-lo, sem prejuízo para o sentido básico do enunciado nem para as intenções formais do texto? Como informa o Dicionário Aurélio, jamegão é um modo popular de dizer assinatura, rubrica, vocábulos mais adequados para o contexto. |
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